Friday, April 21, 2006

A Serra da Estrela, que na Antiguidade teria sido designada pelo nome de “Monte Hermínio”, era até 1880 uma área quase desconhecida de Portugal. Assim, se compreende que a Sociedade de Geografia de Lisboa tenha realizado, em 1881, uma expedição científica à serra.
Pela unidade que representa no conjunto de Portugal, pela diversidade de elementos que encerra e pela riqueza natural, a Serra da Estrela é, merecidamente, a temática deste blog e uma das minhas paixões.

Mas, a Serra está longe de ser a imagem árida e pedregosa, onde quase não há vida...
Há muito na Estrela; é preciso entrar nela, com todos os sentidos e com ânsia pela descoberta.
Os lagos e lagoas, as praias fluviais são espaços de lazer onde é possível descansar e recuperar forças. Esta praia fica no lugar da Senhora do Desterro (Seia) e a água é óptima. É só escolher uma boa companhia...
Realizar passeios pedestres é a melhor forma de conhecer os lugares recônditos (muitas vezes, inimagináveis) da Estrela. Este trilho fazia parte da via romana que ligava Mérida (Espanha) a Viseu e talvez Braga. Mais tarde, o caminho serviu de ligação entre Manteigas e Covilhã, no comércio das lãs.
Engana-se quem pensa que na serra não há história!
O clima, frio e nevoso, e o lobo eram adversidades com as quais os pastores serranos tinham de contar. Este abrigo de pastores , no Vale do Zêzere, revela muito do engenho humano e da harmonia homem-natureza. Devíamos deixar continuar as coisas assim!
Nem só de caos de blocos graníticos reza a serra. Também se reza nos locais construídos para visita de Deus. Mas, como parece que Deus não vem aqui há muito tempo, as capelas ou estão fechadas contra o tempo ou servem de abrigo aos pastores, como esta na Nave de Santo António. Quanto a mim, é uma função muito nobre.
E se há quem conhece a serra, quem a povoe e lhe dê sons, riqueza e vida, são as ovelhas. Pena que elas só berrem e não possam contar. (Nave de Santo António)




Foi Camões que escreveu, referindo-se à parte mais alta da Serra da Estrela, a Torre, "onde a terra acaba e o céu começa".
De facto, as combinações atmosféricas criam este cenário: as nuvens vêm do Atlântico, encontram a serra, que lhes faz barreira, e quem ganha...nem é a serra, nem o céu, somos nós, pela contemplação destas coisas efémeras.
Cascalheira no Vale do Zêzere - a pedra solta, a inclinação e a altura daquela vertente do vale do Zêzere, fazem-nos dar ainda mais importância ao animismo da natureza que aqui foi/é tão prodigiosa.

Depois de subir a vertente íngreme do Vale do Zêzere, eis que chegamos ao magnífico e quase impenetrável Vale da Candeeira - um circo glaciar, onde se formou uma língua glaciar secundária que alimentava o glaciar do Zêzere. Hoje, os campos de cervum, a água cristalina da ribeira da Candeeira, a pastorícia e a beleza do lugar, fazem atravessar todas as dificuldades para aqui chegar.


Perfil do Vale do Zêzere:
a morfologia glaciar - em "U"
os campos agrícolas do esforço humano

O Cântaro Magro (1927m) - símbolo da imponência da Estrela

Thursday, April 06, 2006




A GLACIAÇÃO NA SERRA DA ESTRELA

O que verdadeiramente distingue a paisagem da Serra da Estrela de tantas outras serras graníticas é a profusão dos vestígios glaciares.
A glaciação na Serra da Estrela foi assinalada por Vasconcelos Pereira Cabral em 1884, mas foi sobretudo com os estudos de Lautensach e de Suzanne Daveau que ficou conhecida.
Durante o Quaternário, a serra sofre intensa glaciação, especialmente durante o período Würm, há 20 mil anos atrás. A zona central de alimentação dos glaciares coloca-se no actual planalto da Torre, emitindo 7 línguas glaciares que desciam pelos vales, através de circos glaciares, localmente conhecidos por covões. À acumulação de camadas sucessivas de neves nas partes mais elevadas, com neves permanentes, segue-se o deslizar, muito lentamente, para cotas mais baixas, modificando a paisagem, que no dizer de Suzanne Daveau, é “de tipo alpino encravada no coração de Portugal”.
O planalto corresponde à zona de alimentação de neves, desenvolvendo-se no seu bordo os glaciares, numa espécie de anfiteatro de fundo abaulado e paredes escarpadas.
Segundo Suzanne Daveau, a diversidade de línguas glaciares resultou de dois factores: a topografia pré-glaciar e as condições climáticas verificadas durante a glaciação. Distinguem-se 3 tipos de línguas glaciares: os 2 pequenos glaciares de Estrela e Alvoco, a Sul e Sudoeste; 2 línguas médias de fusão lenta do Covão do Urso e do Covão Grande, voltados para Norte e Noroeste; por fim, as 3 línguas glaciares de Loriga, Alforfa e do Zêzere que descem directamente do planalto central, passando directamente por profundos e estreitos entalhes pré-glaciares, que foram favorecidos pelas condições topográficas.

Da Nave de Santo António, aos vales glaciares de Zêzere e Alforfa, dos Cântaros Magro, Raso e Gordo, ao Espinhaço de Cão e Candeeira, das rochas polidas e aborregadas aos blocos erráticos, da profusão de lagoas de origem glaciar à paisagem nua da Torre, persistem os testemunhos da passagem da glaciação.

Actualmente, acima dos 1750 metros, pode falar-se em ambientes periglaciares e mesmo aos 1000 m de altitude, podem ocorrer casos de fragmentação de rochas devido ao gelo, através da repetição de ocorrência de temperaturas abaixo dos 0º C, no Inverno. Na serra há importantes testemunhos da crioclastia, como as cascalheiras que se encontram no vale do Zêzere, a jusante de Manteigas.


A partir da fotografia tirada pela equipa na área da Nave de Santo António, podemos compreender formas concretas correspondentes à morfologia glaciar.


A explicação da morfologia glaciar tem origem na parte mais elevada da serra, o planalto glaciário ou Fjell (nº1, na foto), que no Plistocénico superior foi ocupado por uma cúpula de gelo com uma espessura máxima de 80 m numa superfície de 70 Km2, que alimentava os diversos glaciares de vale. Esta área é constituída por rochas nuas, depressões ocupadas por lagos, charcos ou prados húmidos, rochas polidas ou estriadas. Não existem depósitos superficiais de importância, aflorando a rocha sã de granito, nem os caos de blocos típicos da paisagem. Trata-se, portanto, de uma zona propícia á queda e acumulação das neves. É ainda importante referir que este local era a principal fonte de alimentação dos diversos glaciares de vale.
Os Cântaros, designação atribuída localmente, sobressaem, majestosamente, como penhascos, acima da Nave de Santo António, dos quais o Cântaro Magro (nº2) funciona como imagem de marca da serra, atingindo 1927 m.
Estas formas de relevo foram postas em evidência pela erosão diferencial, que terão funcionado como nunataks, isto é, relevos que não estavam cobertos pelo gelo do glaciar, como mencionou Suzanne Daveau. As suas vertentes deverão ter evoluído por processos de crioclastia, o que explica o aspecto fendido das suas rochas.
Imediatamente na base dos cântaros, desenvolveram-se áreas depressionárias, correspondentes a zonas de acumulação de neves designadas por Covões. Na foto, podemos observar parte do Covão cimeiro, (nº3), situado acima do Covão D’Ametade. Tratam-se de circos glaciares em forma de anfiteatro de paredes abruptas, cujo fundo comporta um obstáculo rochoso na parte terminal designado por ferrolho (ombilics). Estas formas são importantes para compreender o percurso das línguas glaciares cuja abrasão poliu as suas superfícies.
O Covão da Ametade, corresponde a uma área deprimida e mal drenada, onde houve acumulação de sedimentos e o desenvolvimento de vegetação arbórea, por exemplo, bétulas. O Covão da Ametade, localiza-se a 1420 m de altitude, na base do Cântaro Magro, onde vem passar o rio Zêzere, poucos metros abaixo da sua nascente. Se na Torre a espessura do gelo atingia os 60/70 metros, nesta área evidenciava mais ou menos 300 metros de espessura, o que vem comprovar a importância da língua glaciar que aqui se desenvolveu.
A Nave de Santo António (nº4), constitui como que uma planura inesperada no interior da montanha, aos 1550 m, em forma de cela, embutida entre os Planaltos da Torre e das Penhas da Saúde. Por outro lado, a Nave dá início ao vale do Zêzere e ao vale de Alforfa, já que daí se emitiam as duas línguas glaciárias, com a mesma direcção, mas orientações opostas.
Esta é uma área muito importante para o estudo da glaciação, já que aí se conservam depósitos morénicos, ou seja, blocos de dimensões variáveis envoltos em material silto-arenoso, mais fino. As duas moreias mais significativas encontram-se nos rebordos Norte e Sul da Nave, respectivamente, a moreia do Poio do Judeu, com uma extensão de 1,5 Km; e, a moreia de Alforfa, melhor conservada e simétrica à anterior. Constituem ambas moreias laterais na margem direita da antiga língua glaciária, (nº5).
Do lado direito da nave antes de se dar inicio ao extenso vale do Zêzere, como que ali plantado, encontra-se o Poio do Judeu (nº6), que serve de abrigo a ovelhas e pastores por ser, dizem, a rocha maior da serra. Este corresponde a um bloco errático, isolado, com cerca de 150 m3, em área de fraco declive e que pode indiciar transporte glaciário.
Antes de todos estes processos terem ocorrido, passava já por aqui a célebre falha de Bragança – Unhais da Serra, patente no alinhamento do vale do Zêzere e do vale da ribeira de Alforfa que corre para Unhais.
Do lado esquerdo da Nave fica o Vale de Alforfa, (nº8), embora não visível na foto, com um comprimento de 5.5 km, cuja língua glaciar se dissolveu a uma altitude de 800 m, contendo importantes depósitos pró-glaciares.
Devido à menor exposição dos raios solares a que está exposto o Vale do Zêzere, (nº7), por estar voltado para Norte, a língua glaciar que nele se desenvolveu adquiriu maior extensão, com 13Km de comprimento, sendo portanto o maior (da serra e da Europa) e o mais emblemático. Trata-se de um vale com a forma (aproximada) em U, típica dos vales glaciares. Tem primeiramente uma direcção W-E, para passar a ter depois uma orientação SSW-NNE. As acumulações morénicas são escassas ao longo do vale, mas encontram-se moreias laterais, como a moreia do Espinhaço de Cão, na margem esquerda do vale do Zêzere, um pouco abaixo do vale da Candeeira. O espinhaço de Cão é uma crista onde houve acumulação de blocos bastante heterométricos, e que corresponde a uma fase de recessão do glaciar. O vale da ribeira da Candeeira apresenta sucessões de verrou e ombilics que, aquando da confluência com o vale do Zêzere, se transforma em cascata, confirmando o seu carácter de vale suspenso. As duas línguas ao juntarem-se, originaram uma moreia central.

No máximo da glaciação, o gelo enchia o vale, atingindo uma espessura de 300 metros. Por sua vez, a base das vertentes encontra-se geralmente coberta por depósitos, que dizem respeito a taludes de escombreira e cones de dejecção que vão transportando as moreias para o fundo do vale, numa fase posterior à fusão do glaciar. É por isso que a forma em U não se apresenta tão evidente e as moreias tão perceptíveis.
Mais ou menos a meio do vale glaciar, já se notam algumas moreias de fundo. Os materiais iam sendo largados à medida que a língua ia retrocedendo. Além disso, o rio começa a encaixar-se, pelo que não consegue transportar os blocos de maiores dimensões (erosão selectiva). É possível distinguir aqueles blocos morénicos (arestas mais salientes), dos blocos que sofreram já a erosão fluvial, apresentando formas mais arredondadas.
Já na zona de Manteigas (Caldas de Manteigas), observou-se o designado “caos de blocos”, no meio do vale, que corresponde à moreia frontal destruída, tendo os seus constituintes sido distendidos vale abaixo pelo rio. Ora, tal vem comprovar que o glaciar terá chegado à área de Manteigas, registando aí formas da sua fusão.